(14/07/2010) - Com três meses de idade, Fred, um cachorro sem raça definida, foi deixado na porta da casa de Edson e Patrocínia Soares, em 2005, na cidade de Jeriquara, região de Franca. Logo foi acolhido por seus novos donos. Fred cresceu e se tornou um cachorro muito tranquilo, que só não tinha dó das galinhas dos vizinhos que pulavam o muro e iam parar no quintal que “pertencia” a ele. “Elas eram as intrusas, voavam para nossa casa e só víamos o estrago no outro dia pela manhã. Foram várias galinhas atacadas e mortas, tentávamos pagar, mas nunca aceitaram”, contou Patrocínia.
Com o passar do tempo, os vizinhos começaram a reclamar da situação. Sem outra alternativa para acalmar os ânimos, em março de 2009, o casal decidiu doar Fred a um amigo. “Nossos dois filhos nem ficaram sabendo, levamos Fred escondido no porta-malas do carro”, disse.

DE VOLTA PRA CASA - Ítalo Soares e o irmão Iago brincam com Fred e são observados pela mãe Patrocínia e pela amiga Luiza Aparecida da Silva. Cachorro volta, sozinho, de Ibiraci a Jeriquara. Família está impressionada (Foto: Dirceu Garcia/Comércio da Franca)
O amigo era Maurício Machado, dono de uma chácara que fica a 14 km de Ibiraci. Como o terreno do imóvel é muito grande, achavam que Fred seria mais feliz e que os seus dotes de caçador não causariam tantas reclamações. Quatro dias foram suficientes para que o animal fugisse do novo lar se aproveitando de uma distração de seu novo dono. “Meu filho foi abrir o portão e, quando viu, ele já tinha sumido. Procuramos durante muito tempo. Tudo sem sucesso”, disse Maurício.
Depois da fuga, Fred nunca mais foi visto. Até que, na manhã da última quinta-feira, dia 8, ao abrir a porta de casa, Ítalo Soares, 11 anos, um dos filhos do casal, se deparou com o animal. O cachorro estava com as patas em cima do muro, como se esperasse alguém atendê-lo.
“Quando ele me viu, começou a latir sem parar. Eu senti muita vontade de chorar, era o meu cachorro voltando”.
Fred voltou à sua rotina normal. Para se prevenir de novas reclamações, a família aumentou a altura do muro para que nenhuma galinha consiga ultrapassá-lo. “Depois que o Fred desapareceu, jamais pensamos que poderíamos vê-lo novamente. Tanta coisa deve ter acontecido nesse caminho que me emociono em poder estar com ele novamente”, disse Patrocínia.
Quando perguntado se levaria o cachorro para o amigo de Ibiraci novamente, Edson é categórico: “Doar nunca mais”.
Caso raro
O veterinário e professor da Unifran (Universidade de Franca), Andrigo Barboza de Nardi, disse que o deslocamento de um cachorro por mais de 100 quilômetros (distância entre Ibiraci e Jeriquara) é muito raro. Segundo ele, não há relatos deste tipo envolvendo cães. “Temos notícias de casos como esse, mas não com essas proporções. Outros animais são capazes, como o gato e alguns peixes, de retornar a um ponto específico, mas cachorros com esta capacidade são muito raros”. Apesar de rara, para o professor, a ocorrência é possível.
Para o adestrador e estudioso do comportamento canino, Dino Thomaz, o caso é uma clássica demonstração de amor. “O cachorro ama aqueles que convivem com ele, é como se fosse uma matilha, todos vivem unidos. Quando ele é separado do grupo a que está ligado, ele atravessa qualquer dificuldade para se juntar à sua família novamente”.
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